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domingo, 7 de julho de 2013

PELO VETO AO ATO MÉDICO







Há duas ou três semanas que passou, milhares de cidadãos estavam nas ruas para denunciar sua indignação frente à conduta dos governos, em todas as suas instâncias, por estarem distanciados dos anseios populares – governando de modo auto-referente e pautado apenas pela negociata, visando o poder como o próprio fim. Enquanto isso, os Senadores decidiram aproveitar-se do momento turbulento para aprovar uma medida impopular que estava barrada no Senado desde 2002. Eles demonstraram, em ato, seu total desinteresse pela vontade popular, não ouvindo o clamor das ruas e, tal como Maria Antonieta, recomendando que os revoltados comessem brioches, decidiram aproveitar o ruído do momento para fazer passar o “Ato Médico”, medida descabida e francamente mercadológica. Essa atitude pode por si justificar toda a balbúrdia nas ruas, pois comprova que há muito se legisla no Brasil visando interesses específicos, utilizando-se de brechas para fazer passar na calada da noite medidas impopulares, numa prática de politicagem das mais miúdas.

O “Ato Médico” é o Projeto de Lei 025/2002, de autoria do ex-senador Geraldo Althoff (PFL/SC), com substitutivo apresentado pelo senador Tião Viana (PT-AC), que condiciona o acesso aos serviços de saúde à autorização do médico e estabelece uma hierarquia entre a medicina e as demais profissões da área de saúde.

O ato médico é um projeto de reserva de mercado. Quem imagina que esta proposta vem para qualificar os serviços e processos de saúde, se engana. Fato que vivemos em um sistema democrático regido pelos princípios do capitalismo, dentro de uma economia neoliberal. O ato médico caminha junto a esta ideologia.


Em outras palavras, diversos campos autônomos da área da saúde, regulamentado por seus Conselhos e com formação especifica, passam a ser considerados áreas subordinadas ao campo médico. O médico passa a ser o responsável pelo encaminhamento do paciente aos demais serviços, decidindo, desde fora desses serviços, qual deles ele julga conveniente para o cidadão. Isso impede que outros saberes contribuam na elaboração do diagnóstico, com seu olhar específico para o caso, impossível de ser alcançado pelo médico.

Esse PL também restringe aos médicos o direito de ocupar cargos de chefia, mesmo em serviços não exclusivamente médicos como CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família) e PSF (Programa da Saúde da Família).

O Ato Médico é uma medida classista, que atende à um lobby poderoso e que desvirtua o SUS. O SUS é uma conquista política e social e não pode sofrer este golpe que visa seu aniquilamento. Não é possível que se permita este retrocesso.

 
Para o leigo, por desconhecer a perpetuação da hegemonia colocada, pode parecer interessante que os usuários passem primeiro pelo médico, para depois se encaminharem para as “especialidades”. O que não se considera, no entanto, é que as diferentes áreas do campo da Saúde não são especificidades do campo médico, e sim saberes autônomos. O modo de um Psicólogo compreender um estado de tristeza, uma obesidade ou a droga dicção, por exemplo, nada tem a ver com a leitura médica, que pouco conhece acerca dos processos psíquicos. 

Cabe lembrar que os Psicólogos tem uma formação específica com a duração de cinco anos e aperfeiçoamento permanente, e obviamente tem uma compreensão do sofrimento psíquico mais aprofundada, crítica e abrangente do que um médico pode ter, nas poucas dezenas de aulas acerca deste tema. Diante de um paciente com algum desses sintomas citados acima um médico não tem como avaliar sua gravidade ou contexto para decidir qual a melhor estratégia para atender o sujeito. Mas, com a aprovação dessa PL, caberá a ele “decidir” sobre o destino desse caso, como se fosse portador de uma espécie de saber universal sobre o sujeito psíquico, somático e social.


Sabe-se que o SUS é uma conquista social e popular e que é regido por alguns princípios básicos, a saber: universalidade, equidade e integralidade. Estes princípios o norteiam como um projeto político de acesso ao direito à saúde. Além destes, existem outros princípios estratégicos como referenciais para sua concretização: descentralização, regionalização, hierarquização e participação social.

O projeto SUS caminha no sentido da implementação de uma política de direitos, que se choca com a política neoliberal. Ele é um projeto político de interesse social abrigado em um Estado que é constituído por ambivalências. Por um lado vem o SUS com a garantia de uma política alicerçada em uma clínica, que parte de todos os princípios que o regem. Uma de suas estratégias fundamentais, a clínica ampliada, considera a problemática do sujeito adoecido a partir de uma visão interdisciplinar. Por outro lado vem o ato médico, que assegura o conhecimento da medicina como único, hegemônico, totalitário sobre o sofrimento e o adoecimento do sujeito. Aí, não mais um sujeito, mas um corpo esvaziado.

Esta medida é, portanto, uma afronta à Multidisciplinariedade e a Transdisciplinariedade, marcas das diretrizes do SUS. De acordo com estas diretrizes, o diagnóstico e o tratamento devem ser realizados por equipes multidisciplinares, pois apenas essas podem levar em consideração a condição do sujeito como um todo, avaliando junto ao médico se uma doença resulta de mal-estar psíquico ou de condições sociais de risco, e como estes fatores interagem.


O ato médico é o representante da parcela neoliberal do Estado. Ele propõe que a demanda da saúde seja capitalizada por um determinado saber-poder. O ato médico desqualifica a singularidade do corpo, a singularidade do sofrimento, para fazer do corpo uma mercadoria controlada. Todos os saberes filosóficos, históricos, sociológicos, psicológicos e outros passam a ter menos valia diante do saber-poder do discurso médico sobre o corpo, seu sofrimento e sua subjetividade.

O corpo passa a ter o status de um corpo biológico, esvaziado de sua condição vibrante na produção de vida. Ele passa a ser compreendido soberanamente pelo aspecto biológico e fisiológico. Ou seja, lhe é subtraída a condição de heterogeneidade. E lhe é permitido que se expresse somente pelo discurso médico, no campo da saúde. Assim, o sofrimento do sujeito passa a ser reconhecido e legitimado pelos referencias do discurso médico. Dissociando-o de sua condição política, vibrante, subjetiva na vida, o corpo-sujeito fica esfacelado, recortado e controlado.

Nota-se que o projeto em clínica ampliada dentro do SUS reconhece o sofrimento do sujeito como campo político e clínico. Isto porque se entende como campo de saúde o campo de vida e não o corpo biológico. Assim, é uma incoerência sustentar uma proposta como o ato médico. Evidente que o corpo é o lugar privilegiado de incidência no que tange as práticas/poderes/políticas/saberes. Quando o ato médico, além de cooptar o sofrimento humano como campo da prática e do discurso médico (desautorizando outros saberes na participação da construção de conhecimento), assegura também que o controle dos equipamentos de saúde seja regido pelos balizadores do discurso médico, fica ainda mais claro o interesse da reserva de mercado.


A atenção integral prevista no SUS é uma conquista que deve ser defendida. É claro que o serviço oferecido ainda é criticável em diversas áreas, mas devemos exigir que se cumpra seu espírito multidisciplinar, pois apenas este pode ser capaz de intervir efetivamente nas condições de vida da população. As doenças orgânicas devem ser tratadas pelos médicos, mas elas nunca estão isoladas das condições ambientais, e apenas a confluência das diversas áreas no campo da saúde podem efetivamente compreender o contexto da doença para agir preventivamente ou impedir resistência ao tratamento. A multidisciplinariedade é, neste sentido, a mais eficaz e a mais interessante em termos econômicos, pois uma compreensão limitada do quadro ao diagnóstico médico poderá não resultar em melhora do quadro, podendo, ao invés, agravá-lo e levar as intervenções cada vez mais complexas, e até com abuso de medicalização (como vem acontecendo cada vez mais). Além disso, a doença que se apresenta é uma resultante de diversos fatores, e apenas a abordagem multidisciplinar pode agir em termos de prevenção.

É fundamental que os diversos profissionais do campo da saúde trabalhem de modo articulado, em parceria, realizando diagnósticos que considerem as diversas abordagens à saúde da população. Imaginar que o saber médico abrange e se sobrepõe a todo o campo da saúde é um enorme equívoco. Precisamos defender a autonomia dos diversos campos e fomentar o diálogo e a abordagem multidisciplinar, único modo de verdadeiramente atendermos à população com qualidade e respeito.

É preciso vetar essa medida nefasta, mas também repudiar os Senadores que se aproveitaram das manifestações populares para aprovar uma medida impopular e infrutífera que estava barrada desde 2002 por seu caráter polêmico, mantendo sua surdez à população, desonrando, mais uma vez, o cargo que ocupam. 


Em nome de todas as pesquisas científicas do campo da saúde coletiva – que vem dia após dia problematizando a importância das equipes de saúde trabalharem fundamentadas numa lógica não hierarquizada – e junto a outros movimentos, tais como o MPASP, rogamos que a Presidenta Dilma não fique de olhos e ouvidos fechados para o problema.

O FILÓSOFO

ENTREVISTA COM O FILÓSOFO





O mundo atual é muito fragmentado, a análise ajuda a dar unidade para pensamentos e sentimentos?

O Brasil continua com as desigualdades. Só precisa ser lembrado disso. As manifestações desejam sua recuperação. Não vivemos de construções velhas, portanto é impossível um analista estar ouvindo a mesma coisa. Nossos sentimentos pedem sempre novas ações.O povo deve estar conciente, se não lutar pelos seus ideais governo nenhum no mundo muda sua visão estratégica

Filósofo dê um exemplo? O ser humano continuou igual, enquanto o Brasil sofreu um avanço tecnológico imenso?

Em qualquer tempo nos encontramos em transição. Sempre foi assim. Mas, agora, a velocidade é assombrosa. Outro dia, um adolescente me falou uma coisa interessante: que John Lennon nunca tinha visto um computador.

Quando um paciente tem alta, quem define isso: ele ou o analista?
Não creio em alta. A alta não faz parte da minha idéia analítica. A cura é uma idéia médica e se baseia em sintomas. O que existe são momentos de desenvolvimento que promovem emancipação o Brasil está no decurso desta idéia. Tem muita gente que quer se aprofundar em si mesmo. Por outro lado, para quem faz análise, esse tipo de exercício reflexivo do povo não há como evitar é vital.


Existe quem consiga fazer essa reflexão sem manifestação?
De fato não criamos nada em isolamento. Prefiro dizer que há pessoas que fecham a porta para esse tipo de prática. Muitas possuem uma dificuldade de olhar para sua interioridade. São pessoas que estão sempre em ação, impedindo o contato com o mundo onírico. Outros têm uma cegueira para o que é conflitivo, contraditório e escuro. O que sabemos sobre a análise é que aquele que a faz fica um pouquinho melhor na comparação com ele mesmo. E esse pouco melhor é inestimável. A família e as pessoas ao lado notam. Claro que, como tudo, análise depende de sorte. De achar a companhia certa para tanto. Nelson Rodrigues dizia que sem sorte você não chupa nem picolé porque vai cair no seu sapato.

A rapidez e a competição da atualidade contribuem para o aumento da angústia e facilita os protestos?
Vivemos transformações importantes. Acostumamo-nos a lidar com um aparelho eletrônico e já temos que lidar com um novo. Existe hoje um paradoxo. Vamos viver mais de oitenta anos, mas ficaremos obsoletos profissionalmente, muitas vezes, com 40, 50 anos. Isso gera uma grande insegurança. Há uma enorme concentração de recursos materiais e de expediente para o trabalho para se produzir. Isto influencia nosso modo de viver. Por exemplo, os bancos vão se preocupar com suas ações e não com as hipotecas e o destino dos mutuários. Será que as grandes corporações farmacêuticas são diferentes?

E qual a conseqüência disso?
Falta tempo para o ser humano olhar para a própria humanidade. Não conseguimos construir um acervo onírico, uma personalidade. Sonhar e adquirir um repertório cultural, poético, requer tempo. É isso que necessitamos para dar conta da vida. É um desafio dos analistas de hoje, muito diferente da época do Freud. O sofrimento atual é de outra ordem. A do vazio. O indivíduo sofre, mas não articula um discurso. Quem tem pânico, por exemplo, sequer sabe diferenciar se o sofrimento e o valor das ações. E crescem doenças como a anorexia, obesidade e a bulimia, que há 40 anos eram uma raridade.

O que é anorexia?
Ausência de desejo. Não se sente fome, não há vida sexual. Porque o desejo é visto pelo anoréxico como um perigo de destruição interna. Ele não tem acervo para dar conta. Isso é o desafio para o analista. Como se trata de um discurso que não se organiza, é impossível realizar o que os analistas faziam antigamente – presente no imaginário popular –, de atribuir significados inconscientes ao que o paciente fala. É necessária a criação de novas narrativas, novos sonhos.

E como o analista reage em uma situação como essa?
É um dos temas das manifestações populares. Colocar o analista em questão.

Estamos diante de um mundo novo. Que implica em novo corpo, ética e moralidade. Além de um sistema jurídico que terá que se adaptar a tudo isso. Em um mundo onde as coisas estão cada vez mais técnicas, o desafio para o analista é permanecer um humanista.


Com o avanço das drogas psiquiátricas, o paciente é o que ele toma?
Claro que não. Comemoramos as novas medicações, são um progresso. Entretanto, há um exagero. As pessoas não podem mais ficar tristes. Crises e os lutos são grandes oportunidades de transformação, de inventividade, desenvolvimento. Se você não tem tempo do luto, as pessoas tornam-se descartáveis. Como viver sem perdas? O importante é dar um destino criativo para elas.

Como o senhor vê o crescimento dos fundamentalistas no mundo?
Quando eu comecei, a angústia dos pais era que os filhos estavam virando revolucionários. Hoje, se preocupam porque os filhos estão virando fanáticos. Com o a falta de tempo para construir um acervo que dê conta da sua humanidade, o indivíduo apela para as receitas prontas.


Em qualquer época?
Em tempos de transformação. Quando o velho não existe mais e o novo ainda não se estruturou, criam-se os monstros. São momentos em que ainda não há um novo sonho, uma referência poética. Em épocas como essa, em que não existe tempo de esperar até que se organize um novo sonho, uma nova referência poética e cultural, é que as pessoas se socorrem de coisas estabelecidas.

Outra discussão é sobre a esfera do público e do privado. Mudou com a internet?
Sim. O Facebook e similares, por exemplo. As pessoas acreditam que estão expondo a intimidade ali. Mas, na verdade, não. Mudou o critério de intimidade. O que é íntimo, de verdade, as pessoas enganam e não mostram.

Por quê?
Porque quando é íntimo é conflituoso. Pode ser íntimo para uma pessoa e não para outra. E parte da graça é que é tremendamente conflituoso e angustiante. Senão, seria como comer bife. Os medos da perda, da invasão, do excesso, estão sempre aí. O número de fantasias, medos e expectativas que acompanham a de seus direitos é enorme, e aí é que está a graça ou que fica sem graça.


O que é a felicidade?
Essa felicidade da qual se fala é uma bobagem (risos). Uma coisa é viver criativamente, viver bem. Viver feliz é um sonho infantil. A idéia de não ter conflitos, problemas é uma negação da realidade. Isso não é viver feliz, é ter uma anestesia para uma parte da vida. Uma pessoa que acredita nisso não vive a crise dos filhos, as questões amorosas, os lutos. Pensa em soluções. Chamo essas pessoas de “solucionáticas”.

Para resumir, qual o maior desafio para o analista hoje?
Cada vez mais o tratamento é bipessoal. Na sala de análise tudo pode acontecer virtualmente. O analista tem que ser corajoso e participativo. Ter audácia. Tem que ter o conhecimento. Esta é a sua ética. Estamos todos em questão, o paciente, o analista e a análise. Brasil cabe a brincadeira “vamos olhar nossos problemas de frente: pode se deitar”.

O FILÓSOFO

quinta-feira, 4 de julho de 2013

A PÓS-MODERNIDADE APENAS COMEÇOU




 
Depois dos árabe, Depois da Europa, agora é a vez do Brasil experimentar um novo tipo de ativismo político e social. O movimento popular que ressurge no país é alimentado por uma das ferramentas mais usadas pelos contemporâneos:

As redes sociais




O irrequieto espírito do tempo, o Zeitgeist, para usarmos um conceito do filósofo alemão Hegel, a quem se atribui também a invenção da palavra “modernidade”, está solto no Brasil. Está se manifestando nas ruas das cidades numa onda de protestos, cuja marca registrada é o “contra”:



contra o preço da passagem de ônibus, contra a PEC 37, contra a cura gay, contra a política do governo federal, estadual e municipal. Para o povo brasileiro não falta criatividade, quando se trata de sair às ruas e protestar. Caras pintadas ou não, cartazes, flores, faixas. Mas, não há bandeiras. Estas são coisas do século passado, coisa da modernidade que está com seus dias contados.



Pois ao lado dessa criatividade, desse êxtase quase que erótica do “estado de exceção”, como Giorgio Agamben descreve esse vácuo do poder, quando o povo está na rua e os governantes estão perplexos, é a violência, expressão cega, surda e muda de algo assustador que agora também vem à tona. Eros e, as pulsões da vida e da morte, estão caminhando lado a lado. O desejo errante está solto, sem direção nem palavra, e até o símbolo mais marcante da modernidade, a bandeira nacional, vira manta de proteção contra chuva e cacetadas policiais.



Observamos em nossas ruas as conseqüências da grande onda de manifestações estudantis que, no ano de 1968 sacudiram o mundo desde Paris até Berkeley, desde Frankfurt até Praga, desde a Cidade do México até o Rio de Janeiro e São Paulo. À frente do movimento estava pessoas que, angustiada com um mundo em crise, realizou o início de uma profunda desconstrução dos costumes que já tinha dado seus sinais na arte, principalmente, no rock´n roll. Questionava as instituições orientadas na figura paterna: a empresa capitalista fordista, o Estado paternalista e muitas vezes autoritário e, principalmente, a família patriarcal que não dava espaço para o desejo de emancipação das mulheres. Iniciou assim a desconstrução que ainda não terminou.



De lá para cá, o Muro de Berlim caiu e o Estado nacional cedeu soberania à da comunidade internacional. Empresas se organizaram em redes empresariais. A família tradicional está morrendo, cedendo a laços amorosos que, sem a necessária bênção do Estado ou da religião, se criam e se desmancham. As redes de comunicação, por seu turno, interligam empresas, Estados, clãns e amigos. Antes plataformas para trocar imagens de festas e férias, as redes sociais tornaram-se palcos de manifestações políticas e poderosos instrumentos para decidir a constelação do poder, só esperamos que os eleitores deste município acorde na hora de votar 2014 esta chegando. Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos depois que sua candidatura se tornou um “vírus” na rede.



Das redes para as ruas é um pulo. O movimento brasileiro mobilizado pela internet não é exatamente uma novidade. O mundo já viu movimentos semelhantes aos dos brasileiros nos países árabes, nos Estados Unidos e na Europa sacudida pela crise econômica. No Brasil, não há essa razão para a onda de protestos. Estão pipocando demandas que, se atendidas, puxam outras tantas. O que querem então os manifestantes?



O atendimento de uma pauta de reivindicações, o impeachment, o restabelecimento da ordem nacional, um “novo mestre”, como diria Jacques Lacan?




A pós-modernidade apenas começou. O que está em pauta é a existência não de um governo, mas do próprio Estado moderno e da democracia representativa.



Partidos políticos, sindicatos, organizações da sociedade civil não representam mais aqueles que encontram um sem número de demandas diante da profusão de informações encontradas na internet.



Você quer o que deseja?



É a questão do psicanalista Jorge Forbes.



Como querer o novo?



Eis a questão.



Nessa busca do novo as respostas são múltiplas. Pode haver, sim, uma resposta fundamentalista e autoritária, talvez na figura do líder carismático que, na falta de um direcionamento, dê sentido ao movimento. Essa seria a saída reacionária, aquela que procura fazer com que a história volte para trás. Por outro lado, e isso seria mais plausível, está à possibilidade da construção do poder político pela rede. 




Há o esboço de um partido que até tem esse nome e, não por um acaso, tem uma mulher à frente do projeto. Mas seria a política em rede a saída para a crise de representatividade do espaço político moderno?



O “novo mestre” mostra também aqui sua cara.



Controlar a rede tornou-se, hoje, o “sonho de poder” para falar com as palavras de Michel Foucault, da China até os Estados Unidos. Será que a Matrix tornar-se-á realidade?



Fazer política em rede vai ser o desafio das próximas gerações que até agora dão mostras que, se não sabem exatamente o que querem, sabem muito bem usar os recursos das redes sociais para soltarem a voz. Falta ouvir.

O FILÓSOFO

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O BRASIL NO DIVÃ







Vivemos hoje uma doença interna que desestrutura e desagrega o aparelho psíquico brasileiro. O Brasil

Nascemos de uma necessidade de nossos pais, os quais, diante de uma situação interna complicada, terras mal aproveitadas e não produtivas na agricultura, crise de desvalorização da moeda e escassez de metais preciosos, precisavam buscar novas alternativas para manterem-se no status de Estado Nacional forte.

Nossa gestação dura cerca de trinta anos e nos desenvolvemos no útero de uma mãe, a coroa portuguesa, perversa e exploradora. É um desenvolvimento ao avesso, no qual não nidamos, mas em nós, a mãe se nidou através do extrativismo vegetal do pau Brasil e exploração da mão de obra indígena baseada no escambo.

Gratificamos nossos pais com o lucro de nossas riquezas, durante a gestação, e desde a fecundação, sentimo-nos como filho rejeitado, rapidamente trocado pela exploração de outros filhos, dos quais é explorado especiarias asiáticas, ouro, marfim, além do escravo negro.

O pré-colonialismo é a gestação da angústia, onde nós, o feto, vivenciamos precocemente o medo do abandono e a fragilização imposta pelos abusos parentais.

Nosso nascimento ocorre pela necessidade de ter e criar um filho forte, capaz de sustentar e prover os pais nos seus momentos de dificuldades.

Desde a tenra infância, já temos a noção de que não somos um filho amado, apenas um filho útil. Como nas etapas iniciais da vida, a simbolização ainda não evoluiu e a incorporação necessita de um elemento concreto, fomos submetidos a uma incorporação, também às avessas, onde associamos descaso e exploração a afeto, importância e valorização. Tal aprendizado marcará o curso do nosso desenvolvimento, se repetindo inúmeras vezes. 




Talvez, isto explique a razão de votarmos em políticos corruptos e que nada fazem por seus representados.

Ao olharmos as nossas primeiras relações objetais nos daremos conta de que tudo que aprendemos com nossos pais envolve a exploração, corrupção e a posse desmedida dos pertences alheios, gerando desde então, um profundo sentimento de que existimos para sermos desvalorizados. Explica-se assim, a razão de continuarmos aquém do desenvolvimento, subdesenvolvidos, apesar de tantos recursos e riquezas.

E assim vivemos uma infância permeada pelo abuso, pela constante exploração e obediência cega, gerando uma significativa redução na auto-estima e reprimindo tudo aquilo que nos chama a nossa identidade.
Segundo Freud, nosso id é o depositário da nossa história, onde todo desejo se origina, onde o imaginário é a única realidade possível, atemporal e inconsciente na sua totalidade, detentor da produção de imagens e desconhece a verbalização.
Criativo como o id é o povo de uma nação, um povo que, independente de suas gerações e do tempo, traz no seu comportamento e postura a história pregressa, é a força instintiva que clama por satisfação de suas necessidades e desejos aos governantes.

Só é capaz de verbalizar ativamente quando representado por seus eleitos.

Analogicamente, o povo é o id de uma nação, é a nação em si, é o primitivo que primeiro surge, antes de qualquer organização social e hierárquica.


Do id origina-se o ego, assim como do povo, nascem os governantes, os quais deveriam atender da melhor forma possível, os desejos do povo, adequando-os às leis e a política do país. Aos governantes é atribuído a motilidade de um município, de um estado, de um país; o transitar de níveis inferiores à superiores; são a representação e a síntese de um povo.

Ao Ego Freudiano é atribuída a satisfação dos desejos do id, adequando-os a realidade; detentor da capacidade de síntese e da motilidade, sede das angústias e em parte, inconsciente, repressor e defensor da estrutura psíquica.

Vivemos ainda sob a égide de um superego ameaçador, que nos organiza segundo as leis e poderes do judiciário.

O equilíbrio e saúde psíquica é o resultado de uma interação adequada do id, ego e superego, da mesma forma que a saúde de uma nação é o resultado de uma interação adequada do povo, seus representantes e suas leis, dentro de uma realidade global.

Quando não há a suposta interação adequada das instâncias psíquicas, adoecemos neurotizamos, psicotizamos ou nos exterminamos na delinqüência.

O Brasil vai para o divã e sua análise é permeada de resistências, projeções, negações e toda sorte de mecanismos de defesas possíveis.


O Brasil está doente, precisa reler a sua história para elaborar. Ao interpretarmos sua destrutividade, possibilitamos clarificar o que hoje é obscuro.

Diante de uma infância conturbada, nosso id é formado por duplas mensagens, ambíguo. Nossos pais nos ensinaram os ofícios do dominado, mas exerciam o papel de dominadores; incutiram-nos seus valores e tradições e reprimiram qualquer possibilidade de expressão da nossa identidade. Sob rígidos valores, aprendemos a servir nosso pai e nossa mãe; o imperador e a coroa portuguesa que valorizavam nossos atributos de acordo com suas conveniências.

A força do nosso reprimido foi enfraquecida pelos constantes impostos devidos à coroa, pela posse desmedida e ilícita de nossas riquezas.

A possibilidade de independência nasce das constantes frustrações e limitações impostas ao nosso id. Assim começam os vestígios de formação do Ego, devidamente consolidado às margens do riacho do Ipiranga e do rio Jenipapo.

Nosso ego tem nome: república, e já nasce desestruturado oriundo de um id enfraquecido.

E assim, o Brasil procura o divã e sua queixa é a angústia e desconforto consigo mesmo. Já não consegue esconder e superar sozinho. Não consegue vislumbrar causas para seus sintomas.

Filho de pais abusivos, desde a mais tenra infância foi submetido à violência física e psíquica. Tiraram do seu seio, suas riquezas; ouro e pau Brasil para o uso da mãe, como forma explícita de violência física à alguém que não pode se defender. Sua auto-estima foi construída no papel de dominado, subjugado. Sua única gratificação era a culpa.


As crianças abusadas passam a acreditar que um pai abusivo é melhor do que nenhum e buscarão repetir esse padrão nos relacionamentos futuros. Entre a culpa e auto-estima baixa, o Brasil sempre construiu parcerias com países fortes que supostamente alavancariam o seu desenvolvimento, mas que, como seus pais, estavam sempre prontos a submetê-lo, a dominá-lo, a exemplo da Amazônia, onde muito já não nos pertence. O uso dos seus próprios recursos lhe foi reprimido e tirado mais uma vez.

No divã, o discurso do Brasil delata a sua identidade frágil. Pertence a América, é parte de uma América, mas seu povo não é Americano. Apossaram até mesmo do seu nome de origem: Brasil da América, Brasil Americano.

Cresceu permitindo todo tipo de abuso, categorizado como subdesenvolvido. Sob promessas de futuro e emprego, suas mulheres são usadas como objetos sexuais nos domínios dos “parceiros” desenvolvidos.

Mas, hoje no divã, a patologia não reside na construção de relações objetais, mas na dinâmica interna que o angustia.

Um id reprimido representado por seu povo, onde o imaginário recria incessantemente a fantasia de liberdade, de dignidade e de respeito.

Um Ego cindido, na figura do presidente Lula, da presidente Dilma cego à sua própria fragilidade, escondendo sua falta de controle e de governo, cujo principal mecanismo de defesa é a negação e o isolamento; nega a corrupção na sua entranha, nega a sordidez do poder, nega o poder do id ao negar o desejo do povo.
 
O povo esta pedindo reforma, reforma na saúde, reforma na educação, reforma na segurança, no transporte, nas rodovias, nos impostos abusivos, em resposta o governa manda uma proposta de reforma política com propostas que elenca somente os interesses do governo e o povo? E as manifestações? Nada valeu, só resta vandalismo e morte. Cadê os anseios do povo? Volto a repetir o governo cego à sua própria fragilidade, escondendo sua falta de controle e de governo, cujo principal mecanismo de defesa é a negação e o isolamento; nega a corrupção na sua entranha, nega a sordidez do poder, nega o poder do id ao negar o desejo do povo.   

 
Vive pregando a democracia num território de voto eleitoral obrigatório. O voto é a sua projeção. Alguém escolheu! Alguém votou! Alguém quis assim! O problema não sou eu!

Na sua angústia neurótica, o ego tenta fragilizar o id para que este não o invada.

Criam impostos, cria barreiras, cria formas de tirar o poder do povo, para que este não tenha força e, portanto não o vença.

Se não houvesse a consciência do presidente, se o Ego desconhecesse aquilo que não quer reconhecer e integrar, certamente o diagnóstico seria um Transtorno de Personalidade Múltipla, revelado pela existência de um alter ego que discursa nas tribunas dos parceiros com (pseudo?) confiança e (pseudo?) poder, mas que esconde um lado oposto permeado pela impotência de controlar seus ministros e seu partido político.
 


Do Superego: a lei e o judiciário, pouco há a dizer, apenas revela agora, sem máscaras, o que lhe foi amplamente introjetado pela relação objetal primária com os pais. A falsa contenção superegóica cedeu lugar para a injustiça e desonestidade verdadeira, para a impunidade que privilegia a si próprio e os seus comparsas.

Sem máscaras, abriu caminho para a delinquência que revela o caráter frágil da homeostase psíquica do Brasil.

É preciso muito tempo de análise para promover a auto-estima e crescimento do Brasil. Mais do que isto: o Brasil precisa querer curar-se.

O FILÓSOFO

terça-feira, 2 de julho de 2013

A NOVA ORDEM SOCIAL (01)






Só com uma ardente paciência conquistaremos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens. Pablo Neruda, Prêmio Nobel de Literatura



A

 imprensa escrita e falada tem publicado amiúde os movimentos populares de greve, sublevação e revolta registrados em vários lugares. Estas lamentáveis ocorrências comprovam que o assoberbante problema social de todos os tempos se agravou em nossos dias, constituindo um desafio à sagacidade dos estadistas, políticos e sociólogos.



Verifica-se em nosso século uma revolução social sem paralelo na história do mundo. O chamado "laissez-faire, laissez-passer" que o mundo recebeu tão festivamente como a fórmula ideal para a solução dos grandes problemas econômicos, apenas agravou o mal-estar do organismo social. 

 

O que vemos em nossos dias, apesar do decantado progresso da civilização, é a fome, a miséria e o infortúnio contrastando paradoxalmente com o luxo, o fausto e a riqueza dissipadora, desalmada, insensível e egoísta, que prefere destruir aquilo que falta aos outros ao invés de dar ou vender. Queima-se o trigo, lança-se o açúcar ao mar, derrama-se o leite nos esgotos, no esforço por manter os preços inflados, enquanto milhões padecem à mingua, sem um pedaço de pão, e milhões vegetam sem o necessário indispensável para um nível de decoro e saúde.



Evidentemente, a vida econômica está organizada para favorecer os lucros exorbitantes, ampliando o abismo que separa as minorias privilegiadas das enormes massas que nada possuem. Eis, pois, a situação injusta a que nos levou o classicismo econômico: uma imensa riqueza que se ostenta escarnecedora no meio da fome, pauperismo e miséria.



Tendo em vista reparar os "males sociais", erguem-se os grandes movimentos de reforma. Assistimos mesmo a uma febril eclosão de idéias e doutrinas, todas elas pretendendo resolver o inquietante desajustamento social que aflige o mundo.



O que se pretende e o que se aspira é estabelecer as bases para uma sociedade futura onde não haja mais a miséria de permeio com a fartura, e onde uns não morram de fome enquanto outros nadam na opulência e no esplendor. 




Essa sociedade ideal, entretanto, tem sido a aspiração encantada, o sonho dourado do homem através de todos os tempos, na ânsia incontida de atingir uma organização social melhor, onde a liberdade e a justiça social possam coexistir.



Já na antiguidade clássica, Platão (427-347 AC), festejado mestre do pensamento helênico, preconizava em sua República uma sociedade que cria ser superior, tendo como fundamento uma complexa organização socialista, singularmente moderada.



O sistema, entretanto, passou à História como uma ingênua utopia, concebida por uma mente criativa perdida nos labirintos da fantasia.



ILUSÕES UTÓPICAS




A Platão, através da História seguiram-se inúmeros outros idealistas que, revoltados contra as desigualdades sociais, pretenderam estabelecer sistemas igualitários que trouxessem ao homem um completo bem-estar social. Destacamos, entre outros, Tomas Morus (1478-1535), conhecido humanista inglês, que, combatendo as instituições, a política e os costumes da Inglaterra no século XVI, destacou as virtudes do comunismo econômico e igualitário. Semelhantemente, Tommaso Campanela (1568-1639), utopista italiano, em seu conhecido livro Cidade do Sol, combatendo os processos então vigentes, esboçou o programa que, no seu entender, tornaria o mundo mais venturoso e próspero.



Saint-Simon (1760-1825), Robert Owens (1771-1858), Charles Fourier (1772-1837), Louis Blanc (1811-1882) e outros animados por nobres propósitos, pensaram igualmente em reformar aquilo que julgavam injusto na vida em sociedade. Neste esforço, pregaram a justiça social, baseados nos direitos de igualdade e liberdade. Entretanto, cumpre observar, todos passaram à posteridade como conhecidos utopistas humanitários.



Seus princípios e ideais, embora generosos, esbarraram no egoísmo humano e se fragmentaram. Mas as idéias reformistas não sofreram solução de continuidade. 




Elas continuaram e continuam cada vez mais febricitantes representadas nos modernos e multiformes "ismos":



trabalhismo, socialismo, comunismo, capitalismo, liberalismo, cooperativismo, radicalismo, anarquismo, conservantismo e seus inúmeros congêneres. Esta significativa profusão de doutrinas e dialéticas traduz o ingente e desesperado esforço humano visando alcançar uma nova ordem social mais justa e melhor.

O FILÓSOFO