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segunda-feira, 15 de julho de 2013

A DEPRESSÃO E O DESEJO 01





A depressão revelou-se como um fenômeno clínico, que aponta para uma estrutura – neurose ou psicose. Se a psiquiatria responde, na maioria das vezes, com o medicamento que visa amenizar a dor “um comprimido para o deprimido” –, a psicanálise abre a possibilidade de o sujeito remediar o próprio sofrimento com a palavra.

Voltemos ao caso clínico, a fim de ilustrar a articulação existente entre teoria e prática clínica. O marido e a esposa, o marido havia morrido subitamente, devido a uma parada cardíaca, que não pôde ser revertida pelos médicos. Até os dias atuais, a esposa, refere que a perda lhe é inaceitável e que acredita que tenha sido um erro médico.

Ressente-se por não ter tido tempo de se despedir do marido e reconhece que, desde então, não conseguiu mais chorar, tendo se tornado “uma pessoa fria e congelada”.

Ao longo de seu percurso clínico, questões importantes foram emergindo no discurso d esposa, possibilitando a instauração do trabalho analítico. Uma de suas falas é determinante: “ou eu mato meu marido ou ele me mata”.


Pela primeira vez, seus olhos se enchem de lágrimas e ela diz o quanto se sente “sufocada” por não conseguir, até hoje, chorar pela morte do seu marido.

Este dizer, inicialmente, apontava para uma identificação narcísica da paciente com o marido, já falecido, e essa identificação ocorre comumente na melancolia, levando, naquele momento, a uma hipótese diagnóstica clínica – psicose.

A esposa relata que, inúmeras vezes, pensou em se suicidar, acreditando que esta seria a única forma de eliminar seu sofrimento. Ao ser indagada sobre se havia pensado em como realizaria este ato, ela responde que sim – com um tiro na cabeça, pois no coração poderia errar.

O risco de um suicídio, remetendo a uma possível gravidade do caso, acarretava preocupação e instigava à reflexão. Uma pergunta começou a se impor: ao risco de suicídio, poderíamos contrapor a possibilidade de um trabalho pela palavra que viabilizasse uma mudança de posição?

Outra pergunta surgiu posteriormente: até que ponto a preocupação com a gravidade do caso, ligada ao risco de suicídio, poderia ser articulada à própria insistência da paciente em torno deste tema? A esposa costumava perguntar ao analista se a gravidade do seu caso lhe causava preocupação.


No decorrer dos atendimentos, a paciente, ao invés de falar em “matar” passa a utilizar a palavra “enterrar” – “eu preciso enterrar o meu marido”. Este giro (matar para enterrar) nos sugere uma abertura a um trabalho de luto, e, a partir de então, a paciente começa a apresentar um outro discurso, diferente daquele trazido inicialmente, do quanto dizia sentir-se “congelada”.

O trabalho analítico possibilitou a abertura ao luto, permitindo repensarmos a hipótese diagnóstica inicial.

Concluímos, portanto, que a paciente apresentava traços melancólicos em uma estrutura clínica de uma neurose, mais especificamente, histérica.

Discutimos também a questão da depressão, momento peculiar, em que as perdas aparecem de forma mais freqüente, o que requer a elaboração de um trabalho de luto. Trata-se de perdas sucessivas e variadas em relação ao corpo físico, sofrimento moral, morte de um ente querido – marido ou esposa, filhos. Nesse contexto, nem sempre o sujeito consegue elaborar lutos, razão pela qual a depressão parece ser cada vez mais comum após uma longa experiência de vida.


Algumas questões suscitaram nosso interesse em refletir sobre a depressão após ter vivido uma longa experiência: será que existe uma particularidade na clínica psicanalítica nestes casos? O que Freud observa sobre o atendimento psicanalítico aos nesta fase da vida?

Existiria alguma contra-indicação ou será possível à clínica psicanalítica, visto que estamos lidando com o sujeito, que, para a psicanálise, não envelhece?

Ângela Mucida (2004) afirma que, embora seja possível encontrar na obra de Freud algumas contra-indicações da psicanálise para está fase da vida, devemos considerar que estas foram proferidas em um determinado contexto teórico-clínico do autor. Em vários momentos de sua obra, ao contrário, Freud convoca o analista a desenvolver o dispositivo clínico por ele criado.

Dentre as contra-indicações referentes aos adultos de idade mais avançada, encontramos a afirmação freudiana de que, não sendo aplicável em todos os casos, a terapia psicanalítica teria algumas limitações, entre elas a exigência de um certo grau de maturidade e compreensão – não seria, portanto, adequada a jovens ou adultos mais novo e mentalmente débeis ou incultos.
(Freud 1898, p. 268)

Observa, ainda, que “fracassa com pessoas adultas mais experientes, porque o tratamento tomaria tanto tempo, devido à acumulação de material, que ao fim elas teriam chegado a um período de vida em que nenhum valor atribui à saúde nervosa”.
(Freud 1898, p. 268),


Após arrolar outras contra-indicações, conclui “finalmente, o tratamento só é possível quando o paciente tem um estado psíquico normal a partir do qual o material patológico pode ser controlado”.

Em seu texto “Sobre a psicoterapia”, Freud (1905 [1904]) afirma que a idade dos pacientes deve ser considerada quando da indicação para o tratamento psicanalítico, já que, em pessoas próximas ou acima dos cinqüenta anos, não haveria mais a plasticidade dos processos anímicos de que depende este tipo de trabalho. As pessoas idosas não seriam mais educáveis e, além disso, o material a ser elaborado prolongaria indefinidamente a duração do tratamento.

No mesmo texto, Freud afirma que as psicoses, os estados confessionais e a depressão profundamente arraigada seriam impróprios para a psicanálise. Ressalta que não considera uma impossibilidade absoluta, pois uma modificação apropriada do método poderia levar a superar a contra-indicação no caso das psicoses.

Da mesma forma que em relação ao caso da psicose, Freud mostrou-se um pouco resistente na indicação da psicanálise para os adultos mais experientes, ao longo de sua obra. Porém, em alguns momentos, parece repensar o assunto, como em seu texto “Sobre a transitoriedade”, em que Freud (1916[1915], p. 317) observa que “a limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição”, referindo-se a uma flor que, por durar apenas uma noite, não deixava de ser bela.

Comenta que, enquanto a transitoriedade diminui a beleza da flor para uns, para outros, esta seria ainda mais apreciada.

“Podemos pensar que, estando o sujeito mais em contato com a própria finitude, o suposto pouco tempo para trabalhar em uma análise seria, talvez, facilitador. É o que Freud observa, de forma poética, no texto acima referido”.
(Mucida 2004),


A partir dessa afirmação freudiana, ressalta que, para alguns adultos, o limite do tempo para se definirem algumas posições subjetivas provoca a emergência do tempo de compreender e de concluir, ou seja, podendo usufruir ainda mais do curto período de uma análise. Nesse caso, tendem a se defender menos, resistindo menos que outros adultos ao tratamento analítico.

Se para a psicanálise há o sujeito do inconsciente e do desejo, logo, independente da idade cronológica, pode haver uma aposta em uma análise. A tese principal de (Mucida 2004) está, justamente, apoiada no estatuto do sujeito para a psicanálise.

Com Freud e Lacan, o sujeito, referido ao inconsciente, não envelhece, assim como o desejo se caracteriza por seu caráter indestrutível e não dependente da idade. A atemporalidade do inconsciente remete a um sujeito que não envelhece jamais.

Em “Nossa atitude para com a morte”, (Freud 1915) afirma que, no inconsciente, cada um de nós está convencido de sua imortalidade, ou seja, o sujeito se comporta como se fosse imortal, não acreditando na própria morte. É somente como espectadores que podemos imaginar algo em relação à nossa própria morte. No inconsciente, onde habita nosso desejo, não há uma representação simbólica da morte, razão pela qual o sujeito crê e, muitas vezes, age como se fosse imortal. 

 
Considerando o postulado psicanalítico do inconsciente, não há como falar em idade cronológica, da mesma forma que não há idade para o desejo, e, enquanto houver desejo, há uma aposta em uma análise. O sujeito é o desejo, tal como Lacan afirmava.

Segundo Mucida (2004, p.31), há diferentes posições subjetivas que o adulto pode ocupar frente ao próprio desejo e a amadurecimento implicaria “um saber vestir esse desejo”. O que acontece, na maioria das vezes, é que a entrada na idade adulta mais experiente implica uma ruptura com o desejo, uma vez que é marcada por aspectos puramente negativos. A depressão seria, então, uma possível ‘saída’, uma retirada estratégica para evitar o real em cena. A idade adulta mais experiente poderia atualizar a problemática da castração a partir do luto do que já se foi e de diferentes perdas significativas. A aposentadoria, por exemplo, pode significar uma perda de poder e prestígio e de laço social, podendo até mesmo ocasionar uma ferida narcísica grave. Para a autora, não há idade adulta experiente sem luto, ou seja, a idade adulta experiente  implica poder realizar lutos.

Ainda em “Sobre a transitoriedade”, Freud (1916[1915]) indaga por que é tão penosa a retirada da libido dos objetos perdidos. Sua observação o conduz a considerar que a libido se apega a seus objetos e não renuncia àqueles que foram perdidos, mesmo quando um substituto já lhes acena. Ou seja, há uma grande dificuldade no abandono de uma posição libidinal, o que explica o tempo bastante variável para realizar um trabalho de luto.

As perdas advindas da velhice exigem, assim, um trabalho de luto, pois é um momento no qual os rearranjos que o sujeito realizou para enfrentar o real tendem a desmoronar, assim como muitos de seus ideais. Não podemos negar que, apesar da perda não ser um corolário da idade adulta experiente, estas se tornam mais freqüentes a partir de certa idade – variável para cada um –, impondo elaborações para a construção de outros ideais. Nesse sentido, a depressão aparece como uma resposta possível ao trabalho inoperante do luto, devendo ser tomada sempre como singular, ou seja, em relação ao sujeito que se diz “deprimido” e ao que seus significantes apontam.


Consideramos que o significante depressão está cada vez mais acoplado ao significante na idade adulta experiente, como se envelhecer ou tornar-se “um pouco mais velho” significasse necessariamente ficar deprimido.

Com isso, na idade adulta experiente acaba por ser duplamente excluído socialmente. Observamos, no entanto, que a depressão não se manifesta apenas na idade adulta experiente, já que muitos sujeitos entram na idade adulta experiente quando ainda jovens, ao abrirem mão de seu desejo. É inegável, entretanto, que a depressão tende a surgir, de forma mais incisiva, na velhice, devido ao acúmulo intenso de perdas, conforme abordamos anteriormente.

Tomamos, como ponto de partida, o texto de Freud (1917 [1915]), “Luto e melancolia”, a fim de percorrer, em outros de seus textos, assim como nas contribuições de Lacan e de Melanie Klein, um caminho de delimitação de cada termo, em articulação com aspectos do caso clínico apresentado.

Verificamos que tanto o luto quanto a melancolia, na maioria das vezes, são “reações” diante de uma perda significativa, que pode ser de um ideal ou mesmo de uma “abstração”, como afirmava Freud. Se o luto implica um trabalho de elaboração (Traüerarbeit) frente a uma perda significativa, não sendo, em princípio, patológico, na melancolia não há a possibilidade de simbolizar a perda, tratando-se de uma perda de natureza mais ideal.

A melancolia se caracteriza por um desânimo profundamente penoso, cessação de interesse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar, inibição de toda a produtividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima – “sentimento de estima de si” – a ponto de encontrar expressão em se recriminar e em se degradar, culminando ainda numa expectativa delirante de punição. No luto, “a perturbação da estima de si” está ausente, assim como a
expectativa delirante de punição.


CONTINUA NO PRÓXIMO ARTIGO

O ANALISTA FILÓSOSFO

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