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quarta-feira, 6 de julho de 2011

ANTROPOLOGIA DA EDUCAÇÃO POLÍTICA E RELIGIOSA / PARTE 2


Voltemos agora nossa atenção para a segunda modalidade de abordagem do
tema das relações entre Educação e disciplina. A exemplo do que fizemos no passo anterior, no qual, antes de examinarmos os fundamentos científico-filosóficos das teorias que resultam da abordagem psicológica da Educação, procuramos esclarecer como ela se configurou, o exame dos fundamentos científico-filosóficos das teorias constituídas no contexto de um enquadramento político do tema das relações entre Educação e disciplina dar-se-á aqui apenas após a problematização mais geral do tema das relações entre Educação e Política e na seqüência da delimitação das circunstâncias nas quais a abordagem política da Educação tornou-se possível no Brasil, já que, sabemos, tal possibilidade nem sempre esteve posta em nossa história educacional. 

Procuraremos tecer o pano de fundo das circunstâncias em cujo quadro pode irromper, entre nós, um equacionamento da problemática educacional no qual a Política ganhou a condição de variável preeminente. Isto teve lugar, conforme veremos, após um longo período em que ela, a Política, não interferia, direta e explicitamente, nem na análise dos fenômenos educativos, nem nas práticas educacionais, estando, pelo menos para algumas correntes de pensamento, presente, nestas e naquela, de forma indireta, implícita, mediada.


Se considerarmos três períodos da História do Brasil, a saber, o Colonial, antes da Independência, o Imperial e o Republicano, após a Independência, notaremos que somente passado meio século da República é que se estabeleceu entre nós a perspectiva analítica segundo a qual a discussão de todo e qualquer tema educacional deveria ganhar um equacionamento que levasse em conta a Política.

PATEO DO COLÉGIO EM SÃO PAULO FUNDADO PELO JESUÍTAS: PADRE MANOEL DA NOBREGA. NOVIÇO PADRE ANCHIETA

O aniversário de São Paulo é comemorado no dia 25 de janeiro data de sua fundação foi a 25 de janeiro de 1554, por ordem do padre Manoel da Nóbrega, superior da Companhia de Jesus no Brasil, um grupo de 12 jesuítas, entre os quais o então noviço José de Anchieta, ergueu um barracão no alto de uma colina entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí.


 


Estava fundado o Colégio de São Paulo que originou a cidade de mesmo nome – hoje a maior metrópole da América do Sul, a terceira maior cidade do mundo. 


A região tornou-se uma espécie de ponto de partida para os portugueses que – depois de subir a serra do Mar, vindos das vilas de São Vicente ou de Santos – pretendiam desbravar o sertão brasileiro em busca de ouro e de pedras preciosas. Quanto ao velho Colégio, continua em pé até hoje, atualmente, o local se chama Praça do Pátio do Colégio. Pátio do colégio fundado pelo padre Anchieta em São Paulo.


Durante o período Colonial, sob a batuta dos jesuítas, as concepções e valores do Cristianismo católico desfrutaram, entre nós, foi de uma ampla e profunda hegemonia e poder secular. 


A influência da Companhia de Jesus na educação do povo e na formação cultural da elite foi incontrastável e não houve nenhuma iniciativa educacional que rivalizasse com a deles, pelo menos entre 1549, quando aqui chegaram, e 1759, quando daqui foram afastados, pela iniciativa pombalina, inspirada no enciclopedismo francês.

Todavia, o Catolicismo, como princípio unificador da cultura, a predominância dos estudos clássicos de base literária e humanista, a preeminência pedagógica do princípio da aquisição de uma vista de conjunto do mundo sobre a aquisição de técnicas e saberes especiais, aqui permaneceram, após a partida da Companhia, pelo menos até a fundação do Seminário de Olinda e Recife em 1798. Além disso, não houve, no Brasil, senão após a proclamação da República, um Estado leigo. 



O Estado brasileiro viveu em simbiose com a Igreja Católica durante todo o período Colonial e ao longo de toda a fase Imperial. Ora, sabendo-se que, para o Cristianismo católico, a dimensão espiritual da vida subordina sua dimensão secular e que a Cidade dos homens deve mirar-se e ser tal qual a Cidade de Deus, vê-se claramente que a relação entre Educação e Política não se constituía como problema. Isso porque a inteligibilidade de ambas, Educação e Política, como expressões da vida secular, estavam subsumidas na inteligibilidade da vida espiritual, pois tanto a ação política quanto a ação educacional seguiam os mesmos ditames e eram inteligíveis sob os mesmos fundamentos, critérios e cânones religiosos. 

Bartolomeu de Gusmão: um dos representantes da relação entre os jesuítas e o conhecimento científico.

Os membros da Companhia de Jesus ficaram conhecidos pelas suas ações relacionadas à conversão forçada religiosa das populações nativas do continente americano e em outras porções do mundo. Para muitos, eles eram um instrumento que garantia os interesses de uma Igreja Católica, então enfraquecida pela ascensão das religiões protestantes. Paralelamente, os jesuítas também foram responsabilizadas pelo desaparecimento de várias práticas religiosas anteriores à colonização européia. Quem observa somente tais características acaba por não enxergar que outras questões  OBSCURAS percorreram essa mesma instituição.

De forma geral, os jesuítas estiveram envolvidos com os saberes deixados pela física aristotélica e de outros textos clássicos que discutiam astronomia, óptica, geometria e mecânica. No período renascentista, por exemplo, Christoph Clavius (1538 – 1612) foi um dos mais importantes professores de matemática do período. Outros nomes como os de Manuel de Góis (1543 – 1597) e Matteo Ricci (1552 – 1612) foram de igual valor na manutenção e desenvolvimento das áreas de conhecimento já citadas.

Assim, não havia, propriamente, problema educacional, ou problema político, mas sim expressões políticas e expressões educacionais do verdadeiro problema que era aquele da História da Salvação, na perspectiva da qual tudo eram interpretados nos termos de uma dialética da criação, queda, encarnação, redenção, graça e pecado.  Não será mais esta, pelo menos formalmente, a situação, a partir de 1889. Sabe-se que a noção de República, em seu sentido moderno, resulta, entre outras coisas, de uma distinção gnosiológica e de uma distinção política. A distinção gnosiológica, em conformidade com a tradição que se formava na Modernidade, iniciou-se com a abdicação a todo conhecimento meramente revelado. 

Continuou com a recusa de todo conhecimento abstratamente deduzido, de toda intuição não mediada pelo procedimento crítico, e firmou-se, definitivamente, com a postulação da idéia de uma evolução dos saberes fixada numa hierarquia. Nela, o nível mais baixo, no qual o conhecimento depende de uma revelação, correspondia ao pensamento mítico-religioso ou teológico, o nível intermediário, no qual o conhecimento, embora tendo dado um decisivo passo em direção à autonomia da razão continha um procedimento racional considerado abusivo, correspondia ao pensamento filosófico-metafísico, e o nível superior, no qual o conhecimento renunciava a intenções metafísicas, correspondia à Ciência. 

Assim, na Modernidade, sucessivamente, instituiu-se o domínio de uma autonomia cognoscente do sujeito, apartou-se, com o aprofundamento da mentalidade crítica, o uso teórico do uso prático da razão, e
separou-se Teologia de Filosofia e Filosofia de Ciência.

Isso condicionou a distinção política, também de consonância moderna, que separou vida civil de vida religiosa, poder temporal de poder espiritual, enquanto, na Filosofia Política, evoluía a noção de povo, até chegar-se à idéia de soberania popular expressa na vontade geral. E uma das implicações do reequacionamento induzido por essas distinções vai-se manifestar exatamente no fato de que a relação entre Educação e Política adquirirá a consistência de um problema, posto que não só desaparecerá a subsunção da Filosofia pela Teologia e da Ciência pela Filosofia, mas, além disso, atribuir-se-ão valores, funções e capacidades diferenciadas a cada um dos saberes produzido no âmbito dessas disciplinas, a cada uma dessas formas de saber pelas quais se elabora o conhecimento.

Ora, desaparecendo essa subsunção o problema da Educação apresenta-se, não mais como o problema da preparação para a vida transcendente, ou como o problema dos fins em Educação, mas como o problema do desenvolvimento pessoal do educando, tanto do ponto de vista físico quanto do ponto de vista intelectual, num contexto em que a compreensão do desenvolvimento do corpo e do intelecto havia passado por uma revolução. Apresenta-se, ainda, como o problema da preparação para a participação na vida secular em suas diversas modalidades, isto é, para o envolvimento na vida civil, que inclui tanto a participação na economia, na produção material da vida, quanto à participação na organização do poder. E tais problemas passarão a ter formulação cada vez mais caracteristicamente científica. 


Sabe-se que, com sua sedimentação nas modalidades de suserania e vassalagem nas Monarquias medievais, sucessivamente à queda do Império Romano e à desintegração do Mundo Antigo, o problema da vida civil começa a adquirir nova formulação ao iniciar-se o declínio do Mundo Feudal. Passando pelos reclamos do laissez faire, laissez passe a nova configuração do poder compor-se-á paulatinamente até apresentar-se em contornos definidos com a queda do Antigo Regime, que basicamente era o regime católico.

Manifesta-se então, em crescente proporção a partir da Modernidade, um conjunto de transformações que, começando pelos controles constitucionais dos poderes reais nas monarquias, desembocará na paulatina substituição da suserania e da noção de súdito por uma renovada concepção de cidadania e de soberania popular, formulada nos termos da participação segundo as regras da Democracia. Estas incluirão, a partir daí, entre outras coisas, o direito de voto em variadas modalidades, direito que evoluiu até a modalidade do sufrágio universal. Incluirão ainda a liberdade de pensamento e de opinião, bem como sua livre expressão, a tripartição do poder e a alternância em seu exercício por grupos distintos, a autonomia dos poderes, a idéia de tolerância religiosa. E envolverão também a participação social na vida produtiva, vida social que, a partir daí, tornar-se-á cada vez mais urbana, industrial, fabril.

Continuaremos num próximo artigo o mais breve possível.

O FILÓSOFO

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